Hoje, 22 de setembro de 2017

SG-FN Luciano – biografia resumida‏

SESSÃO SOLENE EM 15 DE MAIO DE 2015

43º ANIVERSÁRIO DA AVCFN

CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DO

VETERANO FRANCISCO LUCIANO DE OLIVEIRA

 

Por ocasião da Sessão Solene alusiva ao 43º Aniversário da AVCFN, foi prestada homenagem ao insigne Veterano Fuzileiro Naval Tenente e Professor Francisco Luciano de Oliveira, que teve seu centenário de nascimento celebrado em 31 de janeiro de 2015. Na ocasião, o Comandante Luciano e sua filha Tammy, filho e neta do homenageado, receberam uma placa em homenagem ao Veterano Luciano.

 

A história de vida construída pelo Veterano Luciano é motivo de orgulho para nós, brasileiros, em especial para os Fuzileiros Navais, pelo seu exemplo de honra, competência, determinação e profissionalismo, como Combatente Anfíbio e como Educador. Para melhor contar esta história, valer-me-ei de extratos de textos elaborados por dois de seus filhos Lucimar e Lucílio.

Nasceu em Santo Antônio do Salto da Onça, interior do Rio Grande do Norte, em 31 de janeiro de 1915, filho de Luciano Jacinto de Oliveira e Maria Amélia de Oliveira, quando o sertão ainda era território do cangaço. Aos treze anos saiu de casa, junto com o pai. Atravessando a mata chegaram à fazenda Maiadinha, o pai seguiu viagem e ele ficou, amansando burro brabo. Depois, seguiu para Brejinho, onde trabalhou como leitor, às sextas-feiras, na rua do mercado, recitando a plena voz as histórias em verso que lhe chegavam às mãos. Nos dias comuns, alugava seu braço na tropa do Zé Alves. Aos quinze anos, está em Natal, na casa do padrinho Sebastião, onde aprendeu a primeira profissão de cidade – Funileiro. Logo descobriu o quanto precisava gastar para ganhar tão pouco e, pelas dificuldades, resolveu seguir outro caminho.

Achou o Seminário de São Pedro, no Tirol, onde se ofereceu como aprendiz de pedreiro, durante o dia, e vigia à noite. Respeitado e tinhoso, se dispunha a comandar, com a voz firme aprendida no cantejar da leitura de cordel. Um dia, o bispo, Dom Marcolino Dantas, veio ver as obras, o que lhe rendeu ser escolhido para dirigir uma parte do serviço, ainda aos quinze anos. Depois de três meses, Dom Marcolino lhe aconselhou a assentar praça, buscar destino como Fuzileiro Naval. A ideia alterou a rotina do rapaz. Soube no Alecrim que chegara um grupo de voluntariado, caçando quem quisesse ser Fuzileiro Naval. Era coisa simples, bastava querer.

E ele quis. Entrou na Marinha em 2 de janeiro de 1931, levando sobre os ombros dois desafios: crescer dois centímetros e aprender a ler e escrever fluentemente. Ao primeiro desafio ele não conseguiu atender, continuou com 1,58 m durante toda a vida. Ao segundo desafio atendeu com sobras incomensuráveis. Um autodidata, viu logo que somente a cultura poderia fazer do pequeno Fuzileiro Naval o homem predestinado a mudar o mundo à sua volta. E se preparou para ser um arauto da palavra e um paladino da educação.

Em 1932 participou da Revolução Constitucionalista, em 1934 foi promovido a Cabo e em 1936 já era 3º-SG-FN-SI (Sinais). Em 1937-38 serviu em Ladário. Retornando ao RJ, atuou como instrutor dos Cursos de Especialização e Formação e Aperfeiçoamento de Sargento, nas áreas de Armamento e Comunicações; foi Encarregado de demonstrações na Instrução de Campo dos Aspirantes Fuzileiros Navais; e Sinaleiro-Chefe do CFN. Em 1945 foi movimentado para a Terceira Companhia Regional, em Natal, onde foi instrutor de Infantaria na Companhia de Voluntários e de Conhecimentos Gerais no Curso de Formação de Reservistas Navais. Teve, então, sua segunda participação em campanha, na Segunda Guerra Mundial, pelo que recebeu a Medalha dos Serviços de Guerra com uma estrela.

Casou-se com Maria de Lourdes Oliveira e tiveram quatro filhos, Lucélia (Advogada), Lucílio (Engenheiro Petroquímico) e dois oficiais da Marinha, Comandante Lucimar e Comandante Luciano, aqui presente. Em 1949 e 1952, respectivamente, concluiu os cursos Ginasial e Científico no Atheneu Norte Rio-grandense.

Em 1953, recém promovido a Suboficial, voltou ao RJ, designado paraservir no QuartelCentral do CFN. Foi transferido para a Reserva Remunerada em 8 de novembro de 1954, como Primeiro-Tenente. Além da condecoração já citada, em reconhecimento aos seus relevantes serviços, foi agraciado com as Medalhas Militar de Bronze e Mérito Tamandaré.

Já na Reserva fez os seguintes cursos: Preparação para Formação de Professores Secundários, de Educação Moral e Cívica, no Ministério de Educação e Cultura; Defesa Civil, na Escola Comunitária Leon Renault; e Extensão Universitária, na Faculdade Souza Marques. Notabilizou-se pela memória prodigiosa, declamando poesias que aprendera como leitor de cordel na Feira de Brejinho. Declamava poemas de Castro Alves, Gonçalves Dias e outros poetas notáveis.

O relato feito já seria suficiente para identificar no Veterano Luciano um Fuzileiro de escol, mas nosso tributo a este Combatente Anfíbio é motivado, também, por outra área em que teve marcante atuação. Para isso, é preciso retornar a março de 1945, no Alecrim, bairro de Natal, RN.

No Alecrim, em torno da Base Naval, na avenidaDois, realizava-se aos sábados uma grandefeira. Num desses sábados, o Segundo-Sargento Francisco e sua esposa vão às compras. Um cesteiro, ga­ro­to com balaio de embira, foi chamado. Feitas as compras, o casal desejava aproveitar o feriado. Luciano pegou umpedaço de papel, escreveu o endereço e estendeu-o ao garotoque, a contragosto, exclamou: “Não seioler, não, senhor”.

À mente do SG vêm, num lampejo, imagens da sua infânciapobre. Lourdes acompanhava tudo e propôs, em voz baixa: “Podíamos ensinar a esses meninos…” Luciano escutou. A ideia lhe bateu na cabeça, poderosa, inevitável. Chamou vários daqueles pobres garotos e lhes perguntou se sabiam ler. Nenhum sabia. Eram uns dezmeninos, precocemente adultos, de cujotrabalho dependia a sobrevivência das famílias.

Mudam-se os caminhoscomo se mudam os destinos. O SG-FN e suamulher, o menino Lourival e outrosoitoounovecesteiros constroem uma ponte entre a feira do Alecrim e a rua Araguaia, onde vãorealizarumtrabalhocujagrandezanão pode ser dimensionada porcritérioscomuns, quantitativos. Vãodescobrir o verdadeirosentido do amorhumano, de uma doação desinteressada e gratuita. Os pobrescarregadores de balaio querem atravessar a noite da ignorânciabruta, embusca do saber.

Tão grande foi o sucesso da iniciativa, que os companheiros de Luciano passaram a ajudá-lo, contribuindo mensalmentepara a compra de material escolar e tambémalpercatas e roupasparaaquelesmeninos descalços. No final do ano, mais de cemcrianças pobres já queriam estudar na “escolinha da boa-vontade”. Nãoeramaispossívelatender a todos. O Sindicato de Trabalhadores da ConstruçãoCivil abriu suasportas. Mudaram-se para o 305, da mesma rua, agora nomeada Ary Parreiras. A casa vai-se tornando, cadavezmais, umcentro educacional: havia, também, aulas noturnas, para Soldados, Cabos e Sargentos Fuzileiros.

Em 1948, nova mudança, para a rua Manoel Vitorino. O Comandante-Geral do CFN, em viagem de inspeção, deseja vê-los. A cerimôniafestiva, emocionante, leva às lágrimas a autoridade, que promete apoiooficial. O Comandante do DN, sediado emRecife, também visita a escolinha. Daí resulta que a Marinhatoma nas mãos o empreendimento e constrói instalações na área da Base Naval. Salas de aulas, secretaria, biblioteca; quadra de esportes, comarquibancada e palanque. O SG Luciano traz de volta antigas experiências, acompanhando as obras diariamente. O apoio dos chefes provoca reaçõesem cadeia. A inauguração foi em 1949, com a presença do Vice-presidente da República. Grande número de oficiais das trêsforças, mundopolíticoregional e local, todos comparecem, bem como as expressões da culturapotiguar e o povosimples, enchendo as instalações da nova Escola Almirante Ary Parreiras.

Luciano, agora 1ºSG passa a tercomo uma de suasfunçõesdirigir a escola. Sua atividadecomoprofessor torna-se diária, sem prejuízo para suas tarefas na formação de recrutas ou instrução de infantaria e esgrimacomfuzil. A escola cresceu. Eram 350 alunos, freqüentando seis turmas, da alfabetização ao últimoanoprimário. Os alunos de uniformecáqui, igual aos Fuzileiros, mas de alpercatas, símbolo dos cesteiros, recebiam uma refeiçãodiária, fornecida pela Companhia Regional.

Em 1953, conforme vimos, Luciano precisou retornar ao RJ, mas a semente plantada em Natal germinou, cresceu, floresceu e deu frutos, muitos frutos, principalmente em forma de cidadãos.

No Rio de Janeiro criou, novamente, a partir do quase nada, uma nova instituição de ensino, inicialmente visando preparar Fuzileiros Navais para concursos internos e, depois, para o público em geral. O Instituto Luciano de Oliveira chegou a ter centenas de alunos nos níveis primário, secundário e técnico. De 1955 até, praticamente, o seu falecimento, a vida do Professor Luciano foi de integral dedicação ao ensino e à formação de cidadãos que a ele devem, no mínimo, a abertura de portas pelas quais passaram crianças que depois chegaram à condição de engenheiros, médicos, militares de alta patente e, principalmente brasileiros bem orientados quanto à importância dos fundamentos essenciais para a formação de uma sociedade justa e progressista.

Esta atuação como educador rendeu-lhe diversas honrarias. Em 1952, a Medalha de Honra ao Mérito, concedida pela Standard Oil Company of Brazil. Homenagens no Programa “Honra ao Mérito”, na Rádio Nacional do RJ, e no Programa “Esta é a Sua Vida”, na TV Tupi. Títulos de “Cidadão Carioca”, em 1960, e “Cidadão Natalense”, em 1973. Um prédio residencial de SO/SG, em Natal, e um espaço destinado a praças no Colégio Naval, receberam seu nome. Duas ruas receberam a denominação Professor Francisco Luciano de Oliveira: uma no bairro da Candelária, em Natal, e outra em Bangu, no Rio de Janeiro.

O Veterano Luciano partiu para a derradeira missão em 23 de abril de 1984, fato assim descrito pelo seu filho, CMG Lucimar Luciano de Oliveira:

“Foi num dia comum.

E, depois que reconstituímos cada instante antes do último, percebemos como foste suave, quase terno, em tua morte: como Sócrates, pagaste o que devias; brincaste com as pessoas da casa; distribuíste cafezinho aos operários.

E ainda, suavemente, olhando nos olhos a tua amada de toda a vida, sorriste.

Um raro sorriso, desses que permanecem suspensos no tempo, sinal da eternidade em que mergulharias.

Um sorriso de menino agreste, leve como um raio de sol, forte como a dor que sentirias em seguida, no peito destemido.

Teu último passo nesta terra foi esse sorriso.

É como se dissesses, afinal, que tudo estava consumado.

Já podias partir tranquilo, a terra semeada, a chuva chegada, o açude cheio, os filhos criados.”

 

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